Estudantes com TDHA, dislexia, entre outros, são “alunos de inclusão”?

Tenho tido muitas dúvidas com relação à educação inclusiva, pois não fomos preparados em nossa formação acadêmica (pelo menos, os que concluíram o curso antes do ano 2000) e ainda há muitas lacunas sobre esse assunto. Na escola onde trabalho, tem chegado um número cada vez maior de alunos com o diagnóstico de déficit de atenção e hiperatividade (TDHA). Muitos professores não aceitam que esses alunos tenham realmente uma dificuldade, preferem acreditar que eles não têm limite e que não gostam de estudar. É mais fácil para esses professores lidarem com estudantes autistas, com Síndrome de Down ou microcefalia porque são questões mais evidentes. Tenho alunos com dislexia, disgrafia e discalculia que também merecem uma atenção especial, mas ainda tem sido muito difícil dar o suporte necessário para o professor. Também temos aparecido casos de alunos com depressão, o que acaba prejudicando o processo de ensino-aprendizagem.

Por isso, preciso de mais informações sobre esse tema. Alunos que trazem os problemas citados acima podem ser considerados alunos de inclusão? Como lidar com a avaliação desses alunos? Eles também precisam de uma sala de recursos multifuncionais (SRM)?

Diversidade

3 respostas

Por Maria de Lourdes de Moraes Pezzuol em 13/06/2018

Olá, atualmente como professora especialista de educação especial para alunos com transtorno do espectro autista (TEA) na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (EESP), no atendimento educacional especializado (AEE). Concordo com você que as “incertezas” de atitudes e ações diante do assunto educação inclusiva dentro das escolas prevalecem, e elas não são poucas. Concordo também sobre a existência de muitas lacunas sobre essa temática. Acredito que os atendimentos deveriam ter uma linha direta com a escola, para que os mesmos pudessem integrar os laudos e pareceres clínicos aos relatórios pedagógicos para fortalecer as propostas de atendimento educacional para esses alunos.

Relato como exemplo a proposta que é desenvolvida em Portugal, onde existe uma legislação educativa que regula as unidades de ensino estruturado para alunos com TEA, desde a idade pré-escolar até ao secundário (rede pública de ensino), e que possuem suporte de uma equipe educativa multidisciplinar. Por sua vez todas elas têm um canal de comunicação facilitado com a equipe de saúde (também multidisciplinar) dos hospitais. (Depoimento de Guiomar Oliveira, Portugal, 2016, que é pediatra do neurodesenvolvimento e professora de pediatria do Hospital Pediátrico – Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e vice-presidente da Sociedade de Pediatria do Neurodesenvolvimento em Portugal que corrobora com esse relato sobre uma experiência desenvolvida nas escolas de Portugal em parcerias com equipe multidisciplinar).

Outra questão que abordo é a oferta de formação para os professores que atuam nessa área, a grade horária dos cursos de formação acadêmica, as exigências legais mínimas para ingresso na educação especial no sistema de educação. Identifico que todos os profissionais que atuam na área da educação deveriam ampliar suas formações sobre educação especial.

Outra questão é sobre o aumento do índice de matriculas de alunos com necessidades especiais educacionais é notório. Gostaria de compartilhar o material de estudo A educação especial no contexto do Plano nacional de educação – PNE em movimento 6. Segundo a autora, uma das formas de monitorá-la no contexto escolar se dá em termos de número de matriculas, comparando o índice do primeiro relatório de monitoramento das metas do PNE, em 2010 o percentual de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos de idade com deficiência que frequentavam a escola estava no patamar de 80%, e 77,0% dos jovens nessa faixa etária com deficiência, TGD e altas habilidades ou superdotação estudavam em classes comuns da educação básica – valor que passou para 88,4% em 2015 (Brasil, Inep, 2015;2016). A autora afirma que: “como não há informações sobre essa população na Pnad anual (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) o Censo Demográfico se torna imprescindível como fonte de dados”.

Em resposta a sua pergunta, os alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem associadas a causas mais específicas como dislexia, disgrafia e discalculia e alunos que são identificados com comportamentos fora do comum para sua idade ou com temperamento agitado, confuso (depressivos) são alunos que se enquadram no atendimento da educação especial. O documento Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica (2001), que aborda essa questão, informa que”:

tradicionalmente a educação especial era apenas concebida para atender alunos que apresentavam deficiências (mental, visual, auditiva, física/motora e múltiplas); condutas típicas de síndromes e quadros psicológicos, neurológicos ou psiquiátricos, bem como de alunos que apresentam altas habilidades/superdotação.

A partir desse documento foi abordado o novo conceito de necessidades educacionais especiais, onde afirmou-se o compromisso de uma nova abordagem, que deveria ter como horizonte a inclusão. Afirmando que:

entende-se que todo e qualquer aluno pode apresentar, ao longo de sua aprendizagem, alguma necessidade educacional especial, temporária ou permanente, vinculada ou não aos grupos já mencionados e que foram reorganizados com a consonância da nova abordagem em dois grupos:

1) aquelas não vinculadas a uma causa orgânica especifica;
2) aquelas relacionadas as condições, disfunções, limitações ou deficiências.

Sendo assim, esses alunos precisam ser atendidos pelo AEE, para que os mesmos possam ter um relatório pedagógico por meio de uma sondagem com avaliações descritivas sobre seus perfis, realizadas pelo professor especialista para poderem buscar auxilio clínico e apoio integrado de outros profissionais. Só assim, será possível propor um plano de ações e atividades para melhorar, integrar e incluir esse aluno na escola respeitando suas dificuldades e limitações. Visto que esses alunos precisam se sentir pertencidos ao ambiente da sala de aula e na escola como um todo. Precisam realizar uma proposta de aprendizagem com significados. Saiba que enquanto educadores precisamos ser pesquisadores de nossas práticas, buscar informações para podermos analisá-las com coesão e critica. Abraços

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Por Valtelândia Brito Costa em 18/09/2018

Olá, sou Valtelândia Brito Costa, psicopedagoga da rede municipal de ensino da minha cidade, Nova Soure – Bahia e também professora de Língua Portuguesa.

Quanto a pergunta sobre o aluno com dislexia e TDAH, se são alunos de inclusão, são sim, no entanto não são alunos de atendimento educacional especializado, modalidade da educação especial, pois estes precisam de que a escola procure trabalhar de acordo com as suas necessidades específicas, e para isso é necessário que a mesma elabore estratégias de como atender suas individualidades; o que pede uma atenção maior. Incluir é atender a todos de acordo com suas condições de aprender.

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Por Raquel Paganelli em 01/10/2018

Em primeiro lugar, fique absolutamente à vontade para registrar todas as suas – muitas – dúvidas sobre educação inclusiva aqui. Este espaço foi criado a partir da constatação de que há muitos professores na mesma situação, sentindo-se inseguros quanto à melhor maneira de atender e trabalhar com cada um dos estudantes, em grupos tão heterogêneos, em sala de aula e na escola como um todo.

Antes de responder objetivamente sua pergunta, considero importante refletirmos sobre o que entendemos por “alunos de inclusão”. Trata-se de uma expressão bastante usada, em escolas de todo os país, principalmente para designar estudantes com deficiência ou TEA ou outros que diferem da maioria. Mas, se partimos do pressuposto de que a educação inclusiva diz respeito a todos, por que chamar somente alguns desta forma – como se a inclusão dissesse respeito somente a estes? Correto seria chamar todos de alunos de inclusão, concorda? 

Assim como a Valtelândia respondeu, estudantes com TDAH, dislexia, entre outros, são, sim, alunos de inclusão. Mas não são público-alvo da educação especial. A Política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva estabelece como público alvo da educação especial estudantes com deficiência, TEA e altas habilidades. Isso se deve à realidade histórica de privação da participação destas pessoas – principalmente das com deficiência e TEA – nas redes de ensino. Ou seja, estudantes com TDAH, dislexia, disgrafia, discalculia, depressão, etc. não têm direito ao AEE. Mas têm direito à plena participação e aprendizagem e ao desenvolvimento de suas potencialidades em igualdade de condições com todos os demais. Direito este garantido em lei. É importante deixar claro, no entanto, que o professor não é o único responsável por isso. Sabemos, entretanto, que a tendência ao isolamento no trabalho pedagógico ainda é uma realidade em muitas escolas públicas e privadas de nosso país que representa uma barreira importante à concretização deste direito para muitos estudantes. Como fazer, então, para que a escola toda se responsabilize pela organização de estratégias para identificar e superar as barreiras  enfrentadas pelos estudantes que não participam ou aprendem? Uma opção é aproveitar as horas de trabalho pedagógico coletivo para discutir possibilidades com a equipe. Alunos diferentes demandam estratégias pedagógicas diferentes. Professores criativos ou que já tenham trabalhado com alunos com características parecidas e o professor de AEE, por exemplo, podem contribuir e muito neste sentido! Outra alternativa é buscar estabelecer parcerias com outras instâncias, tais como universidades, secretaria e profissionais de outras áreas como da saúde, organizações com atuação específica nas áreas mencionadas por você, entre outras. O Instituto Rodrigo Mendes estabeleceu “parcerias” como uma dimensão fundamental no processo de implementação da educação inclusiva na escola. Este estudo de caso ressalta a importância do estabelecimento de parcerias entre a escola e instituições especializadas.

Esperamos ter ajudado. Conte-nos mais sobre isso e continue participando da Comunidade. Você é muito bem vinda(o) aqui! 🙂

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