A criatividade que favorece a inclusão escolar

Cada estudante, com ou sem deficiência, aprende de modo único e a escola precisa inovar para fugir das estratégias que já não funcionaram. Confira o trabalho de educadores que buscaram soluções criativas para ensinar a todos e a cada um

Falar sobre inclusão na escola é falar sobre a sensibilidade, a flexibilidade — e a criatividade — para ensinar todos e cada um dos estudantes. A ideia é dos educadores britânicos Jane Corbett e Roger Slee, referências mundiais em educação inclusiva. Segundo os especialistas, como cada pessoa tem um modo singular de aprender, a escola precisa estar aberta e ser maleável diante das diversas formas de acesso ao conhecimento. Mas como? Criando.

A criatividade é um requisito para uma educação mais inclusiva. O trabalho de descobrir as diferentes vias de aprendizagem em classes comuns, onde há diversidade de estudantes, exige educadores empenhados em buscar soluções que vão além do que já foi feito e em inovar. A criar, portanto.

Cerca de 10 alunos estão sentados em semi-círculo em suas carteiras em uma sala de aula. Ao centro, um dos estudantes manipula uma reprodução do sistema solar feito com bolas de isopor e cartolinas.
Estimular ambiente de criatividade na escola ajuda a torná-la mais inclusiva. Foto: Divulgação/IRM.

Mas essa não é uma responsabilidade exclusiva do professor. A criatividade não precisa estar na pessoa, mas na própria cultura da escola. Quanto maior a troca entre toda a equipe, mais rico e mais criativo o processo de ensino e aprendizagem se torna. E isso pode acontecer, por exemplo, durante os momentos de reunião pedagógica.

Outros importantes aliados são os próprios estudantes e o atendimento educacional especializado (AEE). Ao disponibilizar diferentes recursos para crianças e adolescentes, expô-los a outros ambientes ou criar configurações de trabalho em grupo, o professor fomenta a criatividade para que eles busquem as soluções. Já o AEE, apesar de muitas vezes ser equivocadamente confundido com reforço escolar, tem como objetivo justamente o oposto: ajudar a descobrir e criar novas estratégias pedagógicas, considerando que as de sempre já não deram certo.

Usando a criatividade para incluir

Quer inovar em sala de aula mas não sabe como? O DIVERSA selecionou quatro práticas de professores que usaram materiais pedagógicos criativos em suas aulas, favorecendo a aprendizagem de alunos com e sem deficiência. São estratégias de alfabetização, matemática, ciências e geografia que irão te inspirar a encontrar soluções criativas para sua escola.

Construindo palavras

Embalagens usadas de margarina, pedaços de papelão, fios e lâmpadas de LED. Esses foram os recursos usados na confecção do Painel interativo, material pedagógico que a professora Gabriela Gonçalves usou em uma atividade de alfabetização na Escola Municipal Dr. Deoclécio Dias Machado Filho, na cidade de Mesquita (RJ). Com ele, as crianças construíram palavras, em português e em Língua brasileira de sinais (Libras), selecionando e encaixando peças com letras, sílabas ou imagens.

Conforme Gabriela conta, o Painel interativo foi feito fixando-se potes de margarina em uma caixa de papelão. Nas tampas desses recipientes, foram colados adesivos com figuras de animais, letras, sílabas e sinais em Libras. Na hora da atividade, as crianças identificavam as imagens, formavam a palavra correspondente e apontavam o respectivo sinal em Libras. A cada tampa encaixada corretamente, uma luz se acendia dentro da embalagem.

+ Veja como a professora usou o Painel interativo
+ Aprenda a fazer o material pedagógico

De acordo com a docente, com o material pedagógico, a pequena Patrícia, aluna surda que também estava sendo alfabetizada em Libras, conseguiu relacionar as duas línguas numa atividade em que todos participaram. “Com materiais diferentes, as aulas ficam mais prazerosas e dinâmicas. As crianças saem da rotina e isso desperta nelas a vontade de aprender”, afirma.

Um mercado em sala de aula

Já em Duques de Caxias (RJ), Claudia Pinto Abreu usou a criatividade para relacionar o currículo de matemática com vivências reais dos estudantes do Centro integrado de educação pública (CIEP) Marie Curie. Segundo a professora, os alunos relatavam não saber lidar com dinheiro quando estavam no comércio da região. “Alguns não reconheciam o valor das notas, outros tinham dificuldades para conferir o troco”, conta.

Foi então que a docente decidiu recriar essas situações na escola, levando um mercado para dentro de uma sala do 5º ano. A professora levou pacotes de biscoito, arroz, açúcar e outros alimentos de casa e a turma tabelou os produtos com preços e os organizou em prateleiras, criadas com as carteiras da classe. Com o mercado montado, os estudantes foram às compras, organizados em três grupos que se revezavam nos papéis de cliente, caixa e empacotador. E para tornar a atividade ainda mais divertida, Claudia levou o Jogo das cédulas — uma espécie de leitor de notas feito com uma caixa de papelão e sensores.

Dois garotos estão sentados em carteiras escolares. Eles manuseam o leitor de cédulas feito de caixa de papelão e as notas.
A criatividade foi usada para tratar um conceito abstrato numa situação cotidiana dos alunos. Foto: Divulgação/IRM.

Na brincadeira, os alunos pagavam com cédulas falsas que, ao serem encaixadas no material pedagógico, indicavam o valor mostrando luzes num painel. Na turma, havia dois garotos com deficiência intelectual e um cego, que identificava os números por meio do braille das notas.

+ Veja como a professora usou o Jogo das cédulas
+ Aprenda a fazer o material pedagógico

Para a docente, o recurso permitiu tornar um tema abstrato em algo concreto, uma tarefa que exige bastante criatividade de quem ensina e aprende matemática. “É essencial ter em sala de aula uma experiência como essa. Fazer com que vejam a questão do preço como algo real, não como um número no quadro”, avalia a professora.

Astros ao alcance das mãos

Na Escola Municipal José Mariano dos Passos, em Belford Roxo (RJ), um material pedagógico que simula a movimentação da lua ao redor da Terra foi a estratégia criativa usada por Telma Ribeiro nas aulas de ciências numa turma do 4º ano. Após falar sobre o sistema solar em uma aula mais tradicional, a docente conta que sentiu a necessidade de recorrer a algo mais concreto. A solução foi recriar os astros estudados para os estudantes os movimentarem com as mãos.

Em uma sala de aula, as crianças estão sentadas em círculo. No centro, a professora arruma o material pedagógico. Um garoto com Síndrome de Down sorri para a foto.
O Sistema Terra e lua foi usado por todos os estudantes da classe. Foto: Divulgação/IRM.

No material usado na aula de ciências, a Terra e a lua foram feitos com duas bolas de isopor encaixadas nos ponteiros de um relógio simples. A lanterna de um celular, representando o sol, foi fixada na ponta de um pau de selfie de modo a jogar luz sobre o planeta. Havia, também, plaquetas com desenhos das fases da lua. Todos recursos tinham texturas variadas entre si, o que tornou possível reconhecer cada elemento por meio do tato.

+ Veja como a professora usou o Sistema Terra e lua
+ Aprenda a fazer o material pedagógico

Com as luzes da sala apagadas, Telma aplicou o material e foi capaz de prender a atenção de toda a classe. A turma era formada por 31 alunos, incluindo um garoto com Síndrome de Down. Segundo a docente, a atividade fez as todas as crianças compreenderem melhor um tema difícil de ser tratado apenas com uma exposição oral do conteúdo. “O dia a dia em sala de aula pode ficar muito na teoria. Usar o material aproximou do concreto aquilo que é conceitual. E por conta da questão do diferente, eles participaram”, avalia.

Reproduzindo a paisagem local

Já na cidade do Rio de Janeiro, o CIEP Antônio Candeia Filho baseia todas suas ações pedagógicas em discussões a respeito do bairro onde a escola se localiza, o Acari. Uma proposta que acaba exigindo bastante criatividade de toda equipe.

Nas aulas de geografia de uma turma do 5º ano, os estudantes criaram uma maquete interativa para representar a paisagem do entorno do rio da região. Para isso, a turma fez pesquisas sobre a história e o meio ambiente do bairro e, com base nessas informações, esboçou um desenho da estrutura. De acordo com o diretor do CIEP, David dos Santos Moura, a ideia era construir um modelo no qual todos conseguissem visualizar sua realidade. Veja como foi a aula:

+ Aprenda a fazer o material pedagógico

Na hora de colocar a mão na massa, os alunos capricharam nos detalhes. Na classe, havia 27 estudantes, incluindo um com deficiência auditiva e outro com autismo. Eles usaram recursos simples, como papelão e tecido, e criaram pequenas “bugigangas” eletrônicas, como pequenas rãs que emitiam som, helicópteros com hélices giratórias e residências ribeirinhas iluminadas com LEDs. Além do enfoque ao estudo da hidrografia, outros temas da geografia – como poluição, ocupação humana, clima, fauna, flora e cartografia – foram discutidos.

De acordo com David, os alunos foram os protagonistas da atividade e demonstraram prazer em participar. “Existem muitas formas de aprender”, ele afirma. E usar a criatividade para desenvolver estratégias pedagógicas é um modo de contemplar as diferentes formas de aprendizagem de todos os estudantes.

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