Uma criança com deficiência intelectual pode ficar mais um ano na educação infantil?

Sou fonoaudióloga, tenho 31 anos de profissão, dou total apoio à inclusão, penso sim que é um direito e que precisa haver uma lei para que se efetive. Que na verdade não seria necessário porque são todas as pessoas que deveriam fazer a inclusão acontecer. Porém tem uma coisa que me intriga e vejo que causa mais prejuízo do que benefício. É a questão da idade cronológica. No caso entrar no primeiro ano obrigatoriamente quando já tem 6 anos. Não podendo prorrogar por mais um ano a educação infantil. Uma fase tão importante, tão significativa. E no momento que a criança com deficiência intelectual começa a gostar e entender sobre o que é proposto ali, quando ela começa a querer ter participação, interação, autonomia no que ali é proposto, quando começa dar os primeiros sinais que vai começar a fazer algumas coisas que são marco para idade de 4/5 anos, pelo fato dela ter as limitações e por amadurecer de forma mais lenta, por ter um funcionamento que precisa de mais tempo e de mais repetição para memorizar, assimilar e acomodar aquele conhecimento, isto é podado. Não haverá o tempo de ela vivenciar estas informações. Pois já obrigatoriamente precisa ir para o primeiro ano, fazendo com que ele se depare com coisas novas. E por ainda não ter dominado e armazenado na memória os marcos da faze anterior, tudo começa a ir por água a abaixo, em os bloqueios, os medos, as inseguranças, as cobranças, os comportamentos reativos, e aí tudo se perde, o aprendizado não consegue se organizar, pois há lacunas, o desejo deixa de acontecer e a exclusão flui. Ela mesma prefere se excluir. E muitos passam a necessitar de atendimentos de psiquiatras, uso de medicações, etc.

E para mim aí fica a dúvida que direito humano é este? Onde esta criança não consegue corresponder ao que está sendo exigido dela? Só porque a lei diz que crianças que fazem 6 anos até 31 de março deve ser matriculado no primeiro ano. Que diretrizes são estas que não consegue ver este individuo como alguém igual, mas com especificidades que necessitam de um tempo maior para que chegue a corresponder o que se espera dela? Os livros, os artigos, as diretrizes, as bases curriculares, os gestores, os educadores e nem mesmo os pais, muitas vezes, não conseguem ver isso. Só quem acompanha uma criança especial, só quem proporciona os estímulos adequados conforme sua capacidade de ir entendendo, e com isso vai vendo sua evolução como um todo, é que pode entender como vai ser sua vida escolar, se tais atitudes de seguir essa obrigatoriedade de forma impositiva, é que poderá ter de olhar que uma inclusão assim terá consequências não muito positivas, quanto imaginam que possa ter, se apenas a lei for cumprida, por ser direito. Primeiro ano com 6 anos, segundo ano com 7 anos, terceiro ano com 8 anos, e um monte de experiências negativas junto, um monte de lacunas, que não podem mais ser revertidas, porque o que passou não se resgata mais, se perdeu. E cada ano, ficam mais exclusos, porque não conseguem mesmo acompanhar o ensino comum, até que ninguém mais sabe o que fazer com o aluno, deixando-o de lado ou permitindo que retorne ao ensino especial. Os casos que dão certo na minha região, se tratando de deficiência mental, são raros, muito raros.

Minha pergunta e questionamento é: não tem nada que ampare uma criança deficiente mental, com Síndrome de Down, que ainda não tem linguagem verbal suficiente para ao menos ser entendida pelos seus pares ou professores, que ainda não consegue traçar desenhos ou formas, além de garatujas, para que ela ganhe mais um ano de estímulos, permanecendo na educação infantil pelo menos por mais um ano? Me ajudem. É um caso que tenho, preciso ajudar, porque hoje ele é feliz, ama ir na escola, ama a professora, tenta ser participativo, é respeitado, vibra com o que aprende. Porém sua vida pode mudar neste início de ano, por estar sendo imposto ficar num lugar que ainda não é seu lugar de estar.

Atenciosamente
Marisa Fucillini
Fonoaudióloga
CRFa 7 – 3927

Desenvolvimento infantil

2 respostas

Por Equipe DIVERSA em 06/02/2019

Olá! Selecionamos algumas referências que esperamos que ajudem a elucidar as várias dúvidas presentes em sua questão. Sugerimos que leia as respostas às perguntas do fórum, os artigos e o relato indicados e volte a comentar aqui. Ainda estamos procurando por mais pessoas que possam te ajudar 😉

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Reprovar estudante que ainda não lê pode ajudá-lo na alfabetização?

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Por Mônica Ferreira em 26/03/2019

Boa tarde, minha experiência como mãe de uma criança com autismo foi positiva quanto à retenção na mesma série por mais um ano. Como era uma escola particular, talvez seja mais fácil a negociação entre a família e a escola. A escola concordou que ele refizesse o pré-escolar pois na época ainda estava imaturo para a entrada no primeiro ano, apesar da idade. Foi uma decisão acertada. Abraços.

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