Ana Maria Aparecida Martins

Sou professora de Educação Infantil da Rede Municipal de Bauru, estado de São Paulo. Em 2009, recebi uma aluna de três anos de idade, cujo comportamento diferenciava dos demais alunos. Ela não falava, não brincava com as demais crianças, se irritava com barulho, resistia em fazer as atividades pedagógicas e, quando fazia, rasgava sua atividade. Esse comportamento me intrigou e procurei entender o que se passava com ela, por meio de conversas com a mãe e tentativas de análise profissional. No ano de 2010, essa aluna foi para outra turma, mas mesmo assim continuei a acompanhá-la. Coincidentemente, no mesmo ano, recebi outro aluno com características semelhantes: não socializava, não interagia e não mantinha diálogo nem contato visual com os demais.

Na educação infantil os conteúdos pedagógicos são trabalhados ludicamente e em grupo – sempre explorando o concreto – e essas crianças com suas dificuldades de socialização não participavam.

Outras dificuldades foram encontradas: resistência à merenda escolar, ao uso do banheiro (não faziam suas necessidades no banheiro, tampouco na roupa), extrema irritação frente a atividades diferentes (fora da rotina), como festas, por exemplo. Perante essa situação tinha que fazer algo. Primeiramente pedi ajuda ao Departamento de Educação Especial, onde uma professora especialista os observou para traçarmos um plano de ação. A professora conversou com os familiares, fazendo uma breve anamnese, solicitando autorização para encaminhá-los para avaliação pela equipe multidisciplinar de entidades conveniadas à Rede Municipal de Educação. Todo processo demorou mais um ano até que, em 2011, os dois alunos integraram minha turma, conforme solicitação minha à Direção da Escola.

Finalmente em 2011 tínhamos os laudos dos dois alunos, ambos diagnosticados com Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD). Assim, diante dessa nova realidade, desenvolvemos nosso Projeto Político Pedagógico tendo como foco principal a inclusão. Passei a estudar mais o assunto, frequentando cursos e palestras, pesquisando na internet e encarando o assunto como um grande desafio, talvez o maior de minha vida. A direção da escola tem dado todo apoio e incentivo, estando presente em todas as atividades desenvolvidas. Também procuro estimular as famílias a participarem de todas as ações, mantendo o contato comigo e fortalecendo o diálogo entre nós. Hoje conto com a ajuda de uma professora de educação especial itinerante, a qual me orienta e ajuda nas estratégias e ações. Faço uso também da Linguagem Alternativa, como forma de entendimento e comunicação e, principalmente, procurei estabelecer um vinculo afetivo com essas crianças, quebrando a barreira do isolamento. Tenho toda a rotina escolar fotografada e combinada com eles. Além disso, as duas entidades conveniadas que atendem essas crianças com serviços especializados (fora do período de aula) estão sempre nos orientando e colaborando para o melhor desenvolvimento das crianças. 

Hoje, depois de três anos frente a este desafio, vejo resultados a cada dia. Meus alunos recebem atendimento especializado – uma delas faz uso de medicamento – mas seu desenvolvimento escolar é claramente perceptível. São crianças integradas e aceitas pela escola toda, participando de todas as atividades e estão desenvolvendo suas competências e habilidades. São crianças felizes e que trazem a felicidade.

 

ANA MARIA APARECIDA MARTINS, PROFESSORA DE EDUCAÇÃO INFANTIL

Participante do Prêmio Educador Nota 10 da Fundação Victor Civita.

Compartilhe este conteúdo com seus amigos.
Comente ou compartilhe nas mídias sociais: