Mãe inicia pós-graduação para ajudar escola a se tornar inclusiva para filho

Luciane inicia curso para entender o processo de ensino-aprendizagem das crianças e garantir o direito a uma educação inclusiva para David

Luciane posa com o marido e os dois filhos para fotoSou servidora pública e moro com meu marido e meus dois filhos em Manaus (AM). David, o mais velho, com 7 anos, tem deficiência intelectual e física.

Pelo direito dele à educação,  comecei pós-graduação na área de educação inclusiva no primeiro semestre de 2019 e por isso vou para São Paulo toda semana. Eu precisava entender o processo de ensino-aprendizagem das crianças para auxiliar a escola do David a ser inclusiva e, assim, proporcionar desenvolvimento escolar ao meu filho.

Eu sonhava com meu filho indo para a escola

David nasceu prematuro extremo, teve parada cardiorrespiratória após três semanas de nascimento e adquiriu hidrocefalia. Quando ele tinha cinco meses, tivemos que nos mudar para São Paulo para investigar uma possível doença nos rins, que foi posteriormente confirmada. Aos 4 anos, ele já havia passado por um transplante renal, câncer e por 20 cirurgias.

Não consegui, por conta de todos esses problemas de saúde, que ele fosse à escola. Matriculá-lo no ensino regular durante o tratamento poderia, segundo orientação médica, expô-lo ao alto risco de contrair alguma doença enquanto aguardávamos a lista de espera do transplante.

Mas fazia parte do meu sonho de mãe ver o meu filho indo para escola, encapar cadernos e acompanhar os deveres de casa. Embora eu não tenha formação pedagógica, minha mãe era professora e passou para mim o encanto pelo processo de ensino e aprendizagem na escola.

Contratei um professor para que ele tivesse aulas em casa. E foi maravilhoso, porque o professor olhou para as potencialidades dele e acreditou que o David podia aprender e que não havia limite para isso.  O Bernardo mudou a vida do meu filho e foi muito importante para o desenvolvimento dele.

De volta a Manaus

David anda em rua com auxílio de andadorApós 5 anos em São Paulo, conseguimos retornar para Manaus, já que as consultas médicas se tornaram mais esporádicas. De volta à capital amazonense, busquei  escolas que fossem inclusivas e, após um longo namoro com uma unidade, David começou a educação infantil aos 5 anos em uma escola particular.

A escola me agradou por ter como objetivo o brincar livre, priorizando o desenvolvimento sensorial das crianças: é um grande quintal aberto de muita diversão e interação. Não houve nenhum problema nesse início. Ele foi muito bem aceito e querido por todos, mesmo com algum temor da equipe pedagógica por cuidar de uma criança com tantos problemas de saúde.

Leia outro relato de uma mãe sobre o desenvolvimento de sua filha:
Interesse por culinária auxilia adolescente em seu desenvolvimento

No entanto, no final de 2018, comecei a me preocupar com a transição para o ensino fundamental.  A unidade só oferecia a educação infantil e eu teria que matriculá-lo em outro lugar. Como é que seria ensinar para o David o mesmo conteúdo passado para as outras crianças?

Como é que eu iria avaliar uma escola se eu não sabia o que era uma educação inclusiva?

Eu fiquei aflita com aquela situação. Foi quando lembrei de um grupo de mães de São Paulo do qual eu fazia parte em uma rede social. E me recordei de que lá alguém tinha comentado sobre uma ONG de educação inclusiva. Era o meu ponto de partida.

Quando retornei a São Paulo para o tratamento do David, conheci a fundadora da Turma do Jiló, a Carola. Fiquei com os olhos brilhando e de boca aberta ao conversar com ela. Era exatamente o que eu estava procurando: um conceito de educação que olha para as singularidades de cada pessoa, que acredita no sujeito e confia em sua capacidade de aprendizagem.

Coloquei na minha cabeça que eu levaria a Turma do Jiló para Manaus.  Comecei a fazer articulações para que isso se tornasse concreto. O Ministério Público do Estado do Amazonas se interessou e trouxe a Carola para fazer uma palestra sobre educação inclusiva em um seminário sobre o tema. O auditório lotou! Foi muito animador, mas infelizmente parou por aí.

Luciane e David sorriem abraçados

É muito mais cômodo para as instituições terem um olhar de caridade e de assistencialismo, ao invés de garantir direitos. E é difícil demais desfazer essa mentalidade.

Formação em educação inclusiva

Senti que eu deveria fazer alguma coisa para mudar aquela situação. Carola, então, me indicou a pós-graduação “Inclusão: práticas inclusivas e gestão das diferenças” no Instituto Singularidades, em São Paulo (SP).

Embora eu fosse graduada em turismo e em processamento de dados, me interessei pela oportunidade de aprender sobre o processo de aprendizagem e contribuir com o desenvolvimento educacional do David.

Recebi uma bolsa de estudos, abri vaquinha virtual, que se encerra no fim de agosto, e pedi compensação de horas no trabalho para viabilizar uma ida a São Paulo toda semana para participar das aulas.  Desde o começo do ano, pego o avião às 6h30 todas às terças-feiras em Manaus e retorno de São Paulo no voo da meia noite, às quartas-feiras.

Eu mudei muito!

 A pós-graduação abriu o meu olhar para entender o universo da pedagogia.  Os conteúdos aprendidos são alinhados com o que eu vivenciava e com o meu desejo de inclusão. Tudo o que aprendo eu levo para a escola e tento construir em conjunto uma estratégia de desenvolvimento que considere as potencialidades do David.

Meu plano é este: sentar, ouvir e construir. Como? Não sei. Não existe receita. Mas eu precisava fazer alguma coisa.

Contudo, quanto mais eu estudava sobre a educação inclusiva e sobre os direitos da pessoa com deficiência, mais me incomodava a inaptidão da escola em colocar em prática experiências inclusivas. Eles tinham interesse de incluir o David, mas achavam que isso aconteceria com o passar do tempo, sem investir em ações transformadoras. E, assim, o David foi ficando para o segundo plano.

Em reunião com a diretora, expus todo o meu descontentamento e o que eu enxergava de errado nas ações da unidade. Foi desgastante, mas funcionou. Ela se comprometeu a estabelecer práticas pedagógicas diferenciadas que incluíssem o David. Como consequência, a professora está buscando estratégias para planejar o conteúdo para toda a turma considerando as singularidades de cada aluno.

Além disso, a escola também providenciou acessibilidade física e passou a oferecer um Plano de Desenvolvimento Individual ao David. Foi um período de grandes transformações para ele e para mim. O meu desafio agora é levar todo o meu aprendizado para uma nova escola e, assim, proporcionar educação inclusiva e de qualidade para o meu filho e para as demais crianças.

Eu aprendi com outros pais

Hoje percebo que não são apenas as escolas que precisam se estruturar melhor para incluir os alunos com deficiência. Mães, pais e outros familiares também precisam aprender como lidar com essa situação, como garantir o direito à educação e como acompanhar a aprendizagem de suas filhas e filhos. Antes do curso, tudo o que eu tinha aprendido tinha sido com outros pais, sentada nas salas de espera de terapias.

Leia também:

+ A família na educação inclusiva
+ Redes de inclusão entre família e escola
+ Como a escola pode ajudar as famílias dos estudantes com deficiência?

Por isso, tenho vontade de fazer um curso para famílias sobre educação inclusiva, como trabalho de conclusão da pós-graduação. Os cursos que já existem são mais voltados para professores e gestores escolares, e muitas mães e pais ficam sem saber onde podem buscar informação. Quem vai dizer para eles o que é inclusão e o que não é? Educação inclusiva não é um favor, é um direito!

+ Conheça o curso Portas abertas para a inclusão EAD

Sempre que dizem que a educação inclusiva é muito difícil de ser concretizada e que demanda muito dinheiro, eu mostro o estudo de caso da Escola Clarisse Fecury do DIVERSA. Quando eu ouço o barulho da bicicleta no início do vídeo, sei que as pessoas serão impactadas.

 

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