Michele Dias Pinto

O convite para atuar no atendimento educacional especializado (AEE) da Creche Galba Farias Pimentel, em Campina Grande (PB), veio acompanhado de novos e instigantes conhecimentos. Com a chegada de cada nova criança, nossos estímulos para trabalhar cresciam. O maior de todos os desafios era otimizar o atendimento e personalizar a atuação frente às necessidades da demanda. Foram muitas as angústias, os questionamentos e as dificuldades que vivemos durante o processo de implementação da sala de recursos multifuncionais (SRM) na unidade. Mas acreditamos que nosso trabalho abriu caminhos para a construção de uma sociedade mais humana e inclusiva.

 

Planejamento do AEE

Inicialmente foi necessário traçar objetivos claros. Foram eles:

• Oferecer o AEE de modo que os estudantes tenham acesso a recursos e assistência pedagógica necessários para o pleno aproveitamento da escolaridade regular, conforme preconiza a Política de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva: para isso, foi muito importante buscar os conhecimentos sobre educação inclusiva que têm sido construídos ao longo do tempo. Falar de inclusão, muito mais que discursos e leis, envolve práticas e atitudes. Isso foi, para mim, um mergulho no cerne da escola, em seus dilemas e em suas dicotomias. Envolveu bem mais que pesquisas, mas toda uma desconstrução sobre o que é a escola, o que é ensinar, o que é aprender e como mediar aprendizagens.

• Conscientizar as famílias e a comunidade sobre os direitos da pessoa com deficiência, em especial sobre o direito à educação nas salas de ensino regular: essa proposta parece simples, mas engloba a maneira de ser e estar de outras pessoas. E, geralmente, as pessoas pensam e agem com base em conceitos fortemente arraigados em suas mentes. Assim, interferir no pensamento de alguém para provocar reflexões sobre como a sociedade está estruturada é realmente uma tarefa de grandes proporções. O conceito de deficiência como algo que limita e impossibilita acaba por fechar os olhos de pais e responsáveis. Além disso, o medo de que hajam apelidos depreciativos, desprezo, zombaria e agressões leva os familiares de pessoas com deficiência a escondê-las, “protegê-las” a qualquer custo – até mesmo a custo do desenvolvimento de suas capacidades.

• Promover e ampliar parcerias com os diversos segmentos da comunidade para incentivar a matrícula dos alunos público-alvo do atendimento educacional especializado nas escolas da região: logo de início, percebi que essa articulação seria de fundamental importância para o bom andamento do trabalho na sala de recursos multifuncionais. Foi gratificante receber o apoio da equipe técnica. Isso mostrou o quanto é possível trabalhar em equipe de modo responsável e colaborativo dentro da escola pública. Firmar parcerias é algo complexo e muito dinâmico. O que hoje funciona bem, amanhã será absolutamente inviável.

• Sensibilizar os educadores para as possibilidades da criança com deficiência na escola regular: sempre que buscamos romper com os conhecimentos socialmente construídos e consolidados por décadas de atuação, deparamo-nos com a resistência teimosa do “isso nunca vai dar certo”. É preciso mostrar na prática como se dá a inclusão escolar, colocando à disposição recursos para pesquisa, fomentando discussões e questionamentos para superar o discurso do “não estou preparado para isso” e promovendo reflexões que permitam aos educadores perceber suas próprias potencialidades de ensinar na diversidade. Mas, principalmente, deixar sempre uma abertura ao diálogo, para que o AEE e a sala regular sejam ambientes de aprendizagem significativa e democrática, de fato e de direito.

 

Passos iniciais da sala de recursos multifuncionais

A abertura da sala de recursos multifuncionais gerou muita expectativa e interesse. Depois, houve uma espécie de estranhamento. Algumas educadoras pareciam resistir à ideia, porque não compreendiam como esse novo âmbito educacional refletiria no trabalho já consolidado da instituição. Certamente o temor de rotular as pessoas também contribuiu para essa situação inicial, que foi vencida com a prática. Entretanto, ainda há certa resistência quanto ao trabalho do atendimento educacional especializado. Certamente ainda há muito a ser feito para que as pessoas consigam refletir sobre a inclusão de modo a aceitá-la como exercício de cidadania das pessoas com deficiência.

Outras barreira inicial foi a falta de conhecimento sobre educação inclusiva. Minha formação inicial, por exemplo, apenas arranhou a superfície desse saber. Durante a graduação, só uma disciplina abordou diretamente a educação especial, mas pouco tratou da perspectiva inclusiva. Com isso, foram inevitáveis os sentimentos de frustração e desânimo. Em um ano de atuação na sala de recursos multifuncionais, deparei-me com diferentes desafios que se apresentaram em muitas esferas e formas. A inexperiência apenas aumentava a ansiedade.

Foi a prática que abriu um novo leque de questionamentos e motivou um novo olhar sobre o processo educacional como um todo. Buscar os conhecimentos necessários se mostrou um desafio instigante. A amplitude de possibilidades e tecnologias a serem pesquisadas, desenvolvidas e adaptadas conforme as necessidades dos estudantes exigiu muita sensibilidade e perseverança diante de erros e acertos.

 

O apoio da gestão escolar

Organizar as ações em âmbito administrativo não foi tarefa fácil. A equipe gestora da creche colaborou significativamente na organização do espaço, do tempo e dos recursos. Além disso, conforme aumentavam nossos conhecimentos em educação inclusiva enquanto equipe, aumentava a sintonia e eficiência nas ações realizadas na sala de recursos multifuncionais. Para que a inclusão se efetive de fato é muito importante que toda a instituição escolar se comprometa a acolher o outro.

Após várias versões, conseguimos elaborar um quadro de atendimentos eficiente e adequado às necessidades dos estudantes. Nesse sentido, o maior desafio foi conciliar a divisão do tempo com a disponibilidade das famílias e de outras instituições atendidas. A obediência ao horário de entrada e saída das crianças foi mais um fator desafiante na implementação do AEE na creche. Vale salientar que a divisão do tempo em 40 minutos por atendimento é flexível e adaptável às circunstâncias de cada caso.

Com o desenvolvimento das ações, conquistamos maior compreensão e participação por parte das famílias, apesar da falta de acessibilidade física da rua ainda gerar baixa frequência. Os espaços para diálogo sobre as dificuldades e potencialidades da educação inclusiva nas outras escolas que enviam seus estudantes para nosso atendimento educacional especializado ainda são escassos e raros, mas criamos um blog que usamos como possibilidade de formação.

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