Para incluir criança sem diagnóstico fechado, escola aposta em colaboração e troca de saberes

Juliana* ingressou no 1º ano do ensino fundamental na Escola Municipal Benedito Ferreira Lopes, em Mogi das Cruzes (SP) com uma série de suspeitas de diagnósticos, mas nenhum laudo fechado. Os CIDs (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) que constavam em sua ficha vinham sendo investigados pelos profissionais — psicólogo, fonoaudiólogo e oftalmologista — que a acompanhavam. Em sala de aula, ela apresentava comportamento agressivo, dificuldades para se relacionar com outras crianças e tinha o hábito de levar objetos à boca.

Sala de aula repleta de estudantes do 3º ano. Eles leem jornais em suas carteiras.
Juliana e colegas em sala de aula. Foto: Arquivo pessoal.
As seções clínicas, bem como o atendimento educacional especializado (AEE), eram oferecidos à estudante fora da escola, no contraturno das aulas. Mas, graças à proposta de trabalho articulado que o município tem, os especialistas realizavam visitas à escola para orientar os educadores no atendimento aos alunos público-alvo da educação especial. Além da Juliana, mais 13 crianças da unidade eram atendidas pelo AEE em outros locais da cidade.

Mesmo com a atuação em rede, no ano posterior, o comportamento agressivo da menina se intensificou e os avanços em sua aprendizagem foram tímidos. A estudante rasgava os materiais dos colegas e os agredia com tapas e puxões de cabelo. O hábito de colocar coisas na boca se acentuou, chegando a atrapalhar as aulas e afetar ainda mais seu relacionamento com os amigos. Ao final do ano, Juliana conseguia identificar seu nome, as letras do alfabeto e alguns números.

Trabalho colaborativo

Ao ingressar no 3º ano, a aluna passou a contar com uma profissional de apoio em sala de aula. Durante os primeiros meses, a menina – que era pouco sociável – não aceitou bem a presença da mulher ao seu lado, chegando a agredi-la em alguns episódios. Foi preciso, em um momento mais crítico, solicitar a intervenção da responsável pela formação e orientação dos profissionais de apoio da rede municipal.

Mas, com o passar dos meses, resultados muito positivos começaram a florescer. A profissional de apoio trabalhava em conjunto com a professora da sala de aula de forma muito positiva. Elas pensaram em estratégias para tornar o currículo mais acessível para Juliana, como o uso dos materiais didáticos do programa Ler e Escrever e do projeto Educação matemática nos anos iniciais (EMAI).

Os avanços comportamentais e na aprendizagem se tornaram evidentes.

Compartilhando saberes

Um ponto de destaque nesse processo de inclusão foi a criação de um momento de compartilhamento de saberes na escola. Durante uma reunião mensal com toda equipe, a professora de sala da estudante mostrou um vídeo sobre o movimento de direitos das pessoas com deficiência e falou sobre o aprendizado de ter participado do DIVERSA presencial – formação em serviço sobre educação inclusiva oferecida pelo Instituto Rodrigo Mendes.

Esse foi um momento muito importante. Há outros alunos com deficiência na escola e as angústias e aflições fazem parte do dia a dia dos educadores. Compartilhar resultados, mesmo que tímidos, foi muito relevante para acalmar as expectativas. Essas trocas são extremamente importantes pois, por meio delas, podemos perceber nuances que muitas vezes passam despercebidas.

* Nome fictício

 

Esse relato de experiência é fruto da participação dos autores na edição 2018 do DIVERSA presencial – formação para profissionais envolvidos com o processo de escolarização de estudantes público-alvo da educação especial em escolas comuns. Por meio de parcerias com secretarias municipais de educação, o projeto tem como objetivo contribuir com a ampliação de conhecimentos sobre a educação inclusiva a partir de situações reais e desafiadoras escolhidas pelos participantes.

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