Rossana Ramos

Pedro (nome fictício) é meu aluno há três anos. Ele tem deficiência auditiva e também apresenta dificuldade motora em virtude de uma hemiplegia (paralisação de um dos lados). Sua trajetória foi a seguinte: até os oito anos frequentou escola especial para surdos, onde aprendeu a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Quando chegou à Escola Viva, tinha sérios problemas de interação. Apresentava certo nervosismo e ansiedade em relação ao convívio com o grupo, o que com o tempo foi sendo superado. Seu processo de alfabetização vem se realizando lentamente ao longo desse tempo. Desde o começo, intui que deveria utilizar os recursos visuais como base desse processo. Por isso, a classe inteira trabalhou – e ainda trabalha – com imagens o tempo todo. Aprendi também que deveria sempre me dirigir a ele pela frente e mostrar-lhe minha boca quando falava. Entre as atividades que desenvolvemos, dou sempre ênfase às que podemos realizar utilizando também a linguagem não verbal – gestos, símbolos, desenhos, fotos etc.

Nas aulas de recuperação que Pedro frequenta, pude observar melhor quais são suas hipóteses de fala e de escrita. O que me chamou mais a atenção é que ele generaliza várias coisas sob uma mesma denominação. Por exemplo: todos os animais de penas ele chama de "piu-piu"; gatos e cachorros, de "au-au"; frutas, verduras e legumes de "papá" etc. Havia necessidade de ampliar seu vocabulário e, para isso, fiz algumas fichas com palavras e imagens de objetos de um mesmo campo semântico. O objetivo dessa atividade foi mostrar a especificidade da língua oral, bem como da escrita. Após a aplicação de algumas atividades como essa, Pedro passou a perguntar o nome das coisas, por perceber que elas têm peculiaridades. Sua "alfabetização auditiva" e a apreensão da língua haviam se estagnado em um período em que a criança ainda reduz ou simplifica as palavras a onomatopeias. Agora, Pedro começa também a identificar as diferentes formas das palavras. Ele se Interessou por aprender as letras e começa a utilizá-Ias (ainda no nível pré-silábico). Gosta também de copiar a escrita dos colegas e quer que eu leia para ele muitas coisas, sobretudo as que lhe chamam atenção pela funcionalidade, como é o caso dos bilhetes que vão pela agenda escolar. Destaco aqui que as atividades descritas foram aplicadas com toda a classe, e não somente com Pedro.

Fonte: Relato retirado do livro Inclusão na Prática, de Rossana Ramos (Summus Editorial, 2010).

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