Leitura e escrita na educação infantil com sentido e significado

Com frequência, nós, que trabalhamos com formação de professores, escutamos as perguntas: pode alfabetizar na educação infantil? Não corremos o risco de atropelar a infância das crianças pequenas? Não estaremos introduzindo-as cedo demais no mundo da escrita? E a brincadeira? Não ficaria prejudicada, se nos preocuparmos demais com o processo de alfabetização ao longo da educação infantil? Mas, o que entendemos por alfabetização? E qual a concepção de criança que temos em mente?

Imagem de crianças jogando "amarelinha" em pátio de escola. Menino de camisa amarela anda sobre o número "3" do jogo, sendo orientado por professor levemente curvado aponta para o número "6". Outras crianças esperam a sua vez na posição "Terra" do jogo, localizada à esquerda da foto. Fim da descrição.
Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Dúvidas sérias, perguntas importantes, que nos revelam o quanto estamos preocupados com as experiências que as crianças podem e devem ter até os cinco anos de idade. E por falar em experiência, vamos conhecer algumas reais, viajando um pouco pelo espaço e até pelo tempo? E, por meio dessas experiências, vamos situando também o lugar que a leitura e a escrita podem ter na vida de uma criança pequena.

 

Quem tem medo de “histólia”?

Nossa primeira escala será na cidade de São Paulo e a criança que vamos conhecer será a pequenina Teresa, de apenas 1 ano e 9 meses. Ela está em seu quarto com a sua mãe, que resolve fazer uma brincadeira com a leitora muito precoce. Da cestinha dos livros preferidos da menina, a mãe retira uma das histórias que mais leem juntas e começa a contar a história de outro livro muito querido da menina. Ou seja, troca os enredos! Teresa não tem dúvida: pega o livro das mãos de sua mãe, leva-o até a sua cestinha, retira o livro certo e entrega o novo exemplar para a mãe, dizendo: “esse, mamãe!”. E dizendo isso, senta-se muito satisfeita no colo de sua mãe, a fim de, mais uma vez, reencontrar a história tantas vezes ouvida.

Ainda em São Paulo e no mesmo período de tempo, numa escola de educação infantil, o menino Pedro, de 3 anos, reúne seus amigos em roda para ler o livro “Quem tem medo de dragão?”. Pedro gosta tanto dessa história, que já decorou o seu texto, sabe-o de cor. Os colegas escutam atentos, fazem perguntas à Pedro, trocam opiniões sobre o enredo, as malvadezas do animal imaginário, se emocionam e se encantam com a história. Alguém duvida de que sejam leitores conversando e desfrutando um bom texto literário?

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Nossa próxima parada será no interior da Bahia. Numa zona rural, há uma escola muito simples, onde podemos ver a Kailany, uma menininha de 3 anos e meio, segurando um papel e um lápis. Sentada na soleira da porta e, muito compenetrada, faz como se estivesse escrevendo, imitando a letra cursiva de um adulto. Atenta, a sua professora pergunta o que ela está escrevendo. A menina não titubeia e responde: uma histólia. Dá vontade de esperar para conhecer o enredo, mas precisamos continuar nossa jornada e observar mais experiências de leitura e de escrita entre os pequenos.

Voltamos para São Paulo e encontramos novamente a Teresa, agora mais crescida, com 5 anos. Ela está ajudando a sua mãe nos preparativos da festa de aniversário e produz uma pequena lista de coisas que não poderão faltar na comemoração. Sua lista fica assim:

Ilustração produzida por Teresa, de 5 anos. Há uma menina com laço na camisa segurando uma flor. Do seu lado esquerdo foi desenhado um sol com traços infantis. Acima da imagem, está escrito de cima para baixo "Filme", "Ceruga", "Co" e "Maqina". Fim da descrição.
Ilustração: Arquivo pessoal

Seguimos viajando no tempo e no espaço e vamos parar na cidade de Jarinu, no estado de São Paulo, década de 1960. Ali, a menina Adriana, de 4 anos, está ajudando sua mãe na cozinha e sem querer, derruba uma caixa de ovos, quebrando-os todos. Diante da expressão de desespero de sua mãe, Adriana sai da cozinha e volta com um bilhete de desculpas. Nele, escreveu, ao seu modo, o seguinte texto: mamãe, prometo não quebrar mais ovos, sua filha, Adriana.

O que essas experiências nos dizem?

O que essas crianças, em locais e tempos tão diferentes, nos revelam sobre seu conhecimento acerca da linguagem escrita? E sobre as experiências que já tiveram até os quase 2, aos 3, 4 ou 5 anos de idade, para que pudessem constituir-se nesses pequenos leitores e escritores, que já demonstram não só um saber, mas também prazer no contato com a língua escrita?

Para começo de conversa, já conhecem muito bem o valor da escrita e como esse objeto social pode servir a propósitos muito diferentes: para que entremos no mundo da fantasia por meio de uma história, para que possamos nos lembrar de coisas importantes que precisamos fazer, para nos comunicarmos com alguém, pedindo desculpas etc. Não é pouco conhecimento!

E para que Adriana, Kailany, Teresa e Pedro soubessem de tudo isso, podemos afirmar que participaram de muitas situações em que a leitura e a escrita se fizeram presentes, de forma contextualizada. O que isso significa? Que observaram adultos escrevendo bilhetes, fazendo listas, lendo histórias. Que estão buscando compreender e apropriar-se de seu uso.

Ou seja, essas foram crianças que não só participaram de práticas sociais de leitura e de escrita, mas que tiveram a chance de se fazer perguntas sobre elas: como são, para que servem? E que, tentando responder a essas questões, encontraram muitas outras práticas reais, que fizeram eco às primeiras experiências. Práticas que existem no mundo, que são importantes em nosso contexto social, e por isso mesmo, devem fazer parte da escola, constituindo experiências importantes a ser garantidas, desde a educação infantil.

Leitura e escrita aliadas à prática social

Delia Lerner, pesquisadora e professora argentina, autora de um livro que já se tornou um clássico entre os profissionais que trabalham com alfabetização, afirma que a escola precisa funcionar como uma micro sociedade de leitores e escritores. Isto significa que para se enfrentar o desafio de formar pessoas que de fato saibam ler e escrever é preciso que as crianças tenham, desde cedo, experiências de leitura e escrita, numa “versão que se ajuste muito mais à prática social, o que permite que as crianças possam se apropriar efetivamente da língua escrita”.

Apresentar os textos em seus contextos reais também ajuda a criança na hora de ler e de escrever, pois elas contarão com conhecimentos importantes acerca do porquê os textos nos servem, a sua função, do que eles costumam tratar, que forma possuem. Para que cheguem com esse conhecimento ao aprender a ler e escrever por conta própria, as crianças precisam ter participado de muitas situações de leitura e de escrita. Precisam ter ouvido histórias lidas com muita frequência, ter tido contato com textos diversos, ter preparado pratos a partir de receitas, ter recebido e escrito bilhetes, ter sido incentivadas a escrever “do seu jeito”, construindo hipóteses sobre o sistema de escrita.

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É preciso que tenham sido provocadas por suas professoras e professores, com boas intervenções, é preciso que tenham se arriscado a escrever e pensar sobre esse objeto de conhecimento. Precisam também ter brincado de restaurante, de escolinha, de escritório, situações em que a escrita pode estar presente, inseridas no contexto da brincadeira, com sentido e significado.

Emilia Ferreiro afirma que o grande fracasso que observamos em relação à alfabetização deve-se ao fato de a escrita ser vista como meramente uma técnica, retirada de seu contexto, oferecendo textos sem sentido, muitas vezes, criados apenas para uso escolar. De acordo com a autora:

As crianças são facilmente alfabetizáveis, desde que descubram, através de contextos sociais funcionais, que a escrita é um objeto interessante que merece ser conhecido (como tantos outros objetos da realidade aos quais dedicam seus melhores esforços intelectuais).

Alfabetização se dá nas experiências cotidianas das crianças

Iniciar um processo de alfabetização desde a educação infantil não significa colocar as crianças pequenas sentadas em cadeiras escolares para copiar letras ou preencher fichas de atividades sem sentido, que não têm nenhuma correspondência no real, e que consideram que as crianças não são capazes de ter uma voz na escrita, que aprendem todas da mesma maneira, que não podem expressar seus pensamentos singulares sobre a língua escrita, coisa que todas as crianças citadas puderam fazer.

Iniciar um processo de alfabetização desde a educação infantil significa favorecer um contato verdadeiro com as situações de leitura e a escrita para todas as crianças. E para isso é preciso contar com algumas experiências frequentes: leitura de textos diversos, sejam eles de ficção e de não-ficção, incentivar a escrita pela criança, propondo situações em que ela possa, por exemplo, registrar seu nome em seus pertences, desenhos e outras produções, situações em que ela presencie sua professora ou professor escrevendo um bilhete para as famílias e que, mais tarde, ela mesma possa ser a autora desses bilhetes, situações em que possa registrar o passo a passo de uma gostosa salada de fruta ou de um delicioso bolo feito pela turma, que anote informações sobre uma pesquisa sobre bichinhos de jardim, que a criança participe não apenas de leituras feitas pelo seu professor ou professora, mas também de conversas sobre o lido, procurando expressar o que sentiu, de quais textos se lembrou, o que achou do final de uma história ou do estilo de escrita de um determinado autor, que possa conhecer outras visões sobre o mesmo texto lido, que participe de rodas de indicações literárias, sugerindo leituras para colegas, que leve livros com frequência para casa, a fim de ler com seus familiares…

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Todas essas são experiências que leitores e escritores proficientes têm em seu cotidiano. São experiências que existem fora da escola, estão no mundo, na vida. No entanto, sabemos que, por mais que estejam no mundo, nem sempre estão efetivamente presentes na vida de todas as famílias. Muitas crianças terão apenas na escola a oportunidade de ter essas experiências, já que, em nossa sociedade tão desigual, a leitura e o contato com os textos também não se dá de forma equânime.

Neste artigo mesmo, temos diferentes contextos. Teresa nasceu em um lar de classe média em São Paulo, numa família de leitores. Não é o caso da Kailany. Contudo, as duas tiveram contato com a leitura e a escrita desde cedo, em suas escolas de educação infantil. É neste sentido que a escola, tal como escreveu Maria Teresa Andruetto, pode atuar como a grande igualadora social de recursos culturais.

E a BNCC nessa história?

Ultimamente, temos estado às voltas com a reelaboração dos currículos escolares, por conta da homologação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). De acordo com esse documento:

Desde cedo, a criança manifesta curiosidade com relação à cultura escrita: ao ouvir e acompanhar a leitura de textos, ao observar os muitos textos que circulam no contexto familiar, comunitário e escolar, ela vai construindo sua concepção de língua escrita, reconhecendo diferentes usos sociais da escrita, dos gêneros, suportes e portadores. Na Educação Infantil, a imersão na cultura escrita deve partir do que as crianças conhecem e das curiosidades que deixam transparecer. As experiências com a literatura infantil, propostas pelo educador, mediador entre os textos e as crianças, contribuem para o desenvolvimento do gosto pela leitura, do estímulo à imaginação e da ampliação do conhecimento de mundo.

E ainda:

Nesse convívio com textos escritos, as crianças vão construindo hipóteses sobre a escrita que se revelam, inicialmente, em rabiscos e garatujas e, à medida que vão conhecendo letras, em escritas espontâneas, não convencionais, mas já indicativas da compreensão da escrita como sistema de representação da língua.

E então: pode alfabetizar na educação infantil?

Agora, voltando à questão inicial: se entendermos que alfabetizar significa todo um processo de contato com sentido e significado com situações de leitura e de escrita e de uma reflexão sobre o sistema de escrita, então, sim, não só podemos, como devemos alfabetizar desde a educação infantil, promovendo a participação de todas as crianças, sem exceção, nessas práticas sociais (em meio a muitas outras experiências a que as crianças têm direito, por meio da interação e da brincadeira), considerando que cada criança, em sua singularidade, tem o direito à essa participação. Porque ao ler e escrever, as crianças pequenas estão conhecendo o mundo, as suas belezas, as suas possibilidades, as brincadeiras, as histórias, estão se comunicando e ocupando um lugar nesse mundo que é por escrito, conhecendo também a si mesmas e dando espaço à sua própria voz, por meio da escrita.

Se todas as escolas de educação infantil garantirem experiências plenas de leitura e de escrita às crianças, certamente ampliaremos as nossas chances de sermos uma sociedade mais justa em relação a essa importante garantia: do direito à leitura e à escrita com qualidade para todos e todas.

Referências

Andruetto, Maria Teresa. A leitura, outra revolução. São Paulo: Edições SESC, 2017.

BRASIL, Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação, Brasília, DF: MEC, 2017.

Ferreiro, Emilia. Com todas as letras. São Paulo: Cortez, 1996.

Lerner, Delia. Ler e escrever na escola, o real, o possível e o necessário. Porto Alegre: Artmed, 2002.


Psicóloga (USP) e mestre em Educação (Unicamp). Formadora de professores do Instituto Avisa Lá e da CE CEDAC. Professora do curso de Pós-Graduação “Investigações e Fazeres com Crianças de 4 a 6 anos” do Instituto Singularidades.

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