Um olhar do plural para o individual

Ao criar estratégias pedagógicas articulando pensamento universal e complemento individual, o professor pode fazer a diferença na vida de seus estudantes

Um educador pode influenciar diretamente a visão dos educandos sobre o mundo e formar indivíduos críticos. Como mediador do conhecimento, precisa lidar com diferentes situações de aprendizagem em um grupo. O desafio de um professor preocupado em fazer a diferença nesse contexto de diversidade é tornar o currículo e as disciplinas comuns a todas e todos e perseguir altas expectativas de acordo com o potencial de cada um.

Imagine uma classe na qual todos os estudantes – com ou sem deficiência – tenham acesso a um conteúdo em áudio. Certamente muitos alunos, além de algum com deficiência visual, seriam beneficiados.

Experiências educacionais nesse sentido – em que o educador avalia e utiliza tecnologias e estratégias para todos, esperando resultados personalizados –, se multiplicam pelo país, mostrando que essa é uma tarefa possível e viável.

Ensinando para todos e para cada um

No município de Belford Roxo (RJ), por exemplo, para lidar com as diferenças de aprendizagem em uma classe do 4º ano do ensino fundamental, a professora Telma Ribeiro recorreu a um material pedagógico acessível feito com bolas de isopor e outros materiais de papelaria. Chamado de Sistema Terra e lua, o recurso foi usado em uma aula de ciências sobre o sistema solar, envolvendo todos os estudantes da classe, inclusive Arthur – garoto que tem Síndrome de Down. A aposta da docente era no potencial visual e tátil do material.

Enquanto mediadora, a docente levantou os desafios da turma e elaborou uma estratégia para um fim didático. Com uma solução simples, otimizou a aprendizagem de todos, fugindo da mesmice das aulas tradicionais, e propiciou a Arthur autonomia para interagir com os colegas. Segundo a educadora, durante a atividade, o aluno se mostrou mais participativo e atencioso.

Já em Belém (PA), na escola Professor Nagib Coelho Matni, o professor de física Bruno fez a diferença na vida de André, estudante cego, ao dividir com a turma uma angústia comum a muitos educadores: como incluir? Apostando no conhecimento do próprio grupo, Bruno instigou a classe a criar estratégias para ensinar óptica ao colega. O desafio engajou toda a turma em pesquisas sobre ensino de física para pessoas com deficiência visual e na criação de recursos concretos para falar sobre luz, formação de imagens e cores. O resultado foi a montagem de um kit de materiais para entender fenômenos ópticos a partir do tato.

Diversas formas de aprender

Telma e Bruno fizeram a diferença na educação de seus alunos quando perceberam que não só os com deficiência se beneficiariam com estratégias inclusivas. Diversificaram suas aulas – os formatos dos materiais didáticos, as práticas pedagógicas, as relações entre o conteúdo e a vida real dos educandos etc. –, pois perceberam que seus alunos são diversos e têm diferentes formas de aprender, podendo ser:

• Estudantes visuais: beneficiam-se de estratégias pedagógicas que envolvam objetos ou imagens, informações com códigos de cores, organizadores visuais;

• Estudantes auditivos: a aprendizagem é favorecida com palestras, discussões, conversas com colegas e com recursos como audiolivros e softwares de conversão de texto para fala;

• Estudantes sinestésicos ou ativos: aprendem melhor na prática, seja manipulando objetos e diagramas tácteis, realizando movimentos ou por meio de projetos;

• Estudantes com dificuldade de aprendizagem: beneficiam-se de estratégias pedagógicas que trabalham com pouca informação por vez, repetições frequentes, materiais de textos com vários níveis de complexidade, exemplos, experiências de aprendizagem concretas;

• Estudantes culturalmente diferentes: têm a aprendizagem favorecida com materiais e métodos de ensino culturalmente relevantes e significativos;

• Estudantes que preferem se expressar oralmente: aprendem melhor com oportunidades de discussão na aula ou quando respondem a perguntas.

A sociedade não é toda igual e homogênea, mas plural e com inúmeras especificidades. Quando combinamos o pensar universal e o complemento individual para cada estudante, podemos enfrentar os desafios de uma sala de aula heterogênea. O educador, portanto, deve olhar as especificidades e contextos de maneira diferenciada a fim de atingir o ideal de equidade.

É com um educador preparado para os mais diferentes contextos que será possível eliminar as barreiras para as pessoas com deficiência no ambiente escolar, com uma educação inclusiva, possibilitando a autonomia, para que todas e todos possam exercer a cidadania.

 

Isabela Morais é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Faz parte da equipe do Instituto Rodrigo Mendes, onde é redatora do DIVERSA.

Paulo Lopes é licenciando em Educomunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e atua na área de formação do Instituto Rodrigo Mendes.

Artigo originalmente publicado no blog “Todos Pela Educação” em 18/12/2018, disponível em blogs.oglobo.globo.com/todos-pela-educacao/post/um-olhar-do-plural-para-o-individual-que-tipo-de-alunos-sao-os-seus.html.

© Instituto Rodrigo Mendes. Licença Creative Commons BY-NC-ND 2.5. A cópia, distribuição e transmissão dessa obra são livres, sob as seguintes condições: você deve creditar a obra como de autoria de Isabela Morais e Paulo Lopes e licenciada pelo Instituto Rodrigo Mendes e DIVERSA.

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