Campeãs mundiais paralímpicas defendem a educação inclusiva

Atletas e estudantes de escolas comuns consideram a convivência com a diversidade fundamental para a formação de jovens esportistas

Lara Aparecida tinha 14 anos quando participou de sua primeira competição de halterofilismo. Foi uma etapa do regional centro-leste, ocorrida em Brasília (DF) no ano de 2017. Agora em julho de 2019, aos 16, ganhou o Mundial de Halterofilismo na categoria até 41 kg em Nur-Sultan, capital do Cazaquistão. Lara é atleta paralímpica, campeã mundial e também estudante do 1º ano do Ensino Médio de uma escola pública da cidade mineira de Uberlândia.

A atleta Lara posa com suas medalhas no primeiro lugar do pódio do Circuito Loterias Caixa 2019. Fim da descrição.
Circuito Loterias Caixa 2019. Foto: Comitê Paralímpico Brasileiro/Flickr.

Conciliar a rotina de treinos e viagens com o cotidiano da escola é tarefa difícil. Desde os 10 anos ela se dedica ao esporte, porque sempre esteve “na veia”. Ela ri ao lembrar que começou a treinar trocando a barra de ferro por um cabo de vassoura.

“Excluída do baile”

Lara tem deficiência física e usa cadeira de rodas. Estudou praticamente a vida inteira em salas comuns de escolas públicas e considera muito positiva a convivência entre estudantes com e sem deficiência. Ela entende que o contato com a diversidade é importante para que as pessoas eliminem preconceitos e valorizem as singularidades de cada um.

Contudo, Lara ainda não se sente totalmente incluída na escola, principalmente nas aulas de educação física. Embora seja atleta, as atividades propostas não levam em consideração a sua participação.

Hoje em dia eu não faço nada na educação física, porque a brincadeira é só bola. Por conta da minha deficiência e por eu não gostar de bola, eu acabo excluída do baile.

O esporte mudou a minha vida

Nos primeiros anos de sua vida escolar, Lara sofreu com preconceito e bullying por parte de outros estudantes, o que lhe causou depressão. A prática esportiva, então, foi para ela uma poderosa ferramenta de inclusão. O halterofilismo proporcionou o desenvolvimento de sua identidade e de suas competências socioemocionais, sendo importante para que ela se entendesse parte do mundo.

O esporte tanto pelo lado emocional e psicológico, quanto pelo lado humano, mudou completamente a minha vida. E até hoje muda: faz com que eu me sinta incluída.

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Campeã mundial aos 17

Lorena Spoladore, 23 anos, é atleta paralímpica e também não participava das aulas de educação física: “ficava de canto, isolada”. Cega, ela foi campeã mundial de salto em distância aos 17 anos. Ela estudou toda a educação infantil até o ensino médio em escolas públicas do município de Goiânia (GO).

A atleta Lorena Spoladore e seu guia posam com suas medalhas nos Jogos Parapanamericanos Lima 2019. Fim da descrição.
Jogos Parapanamericanos Lima 2019. Foto: Daniel Zappe/EXEMPLUS/CPB.

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Ainda assim, foi por conta de um professor de educação física que Lorena entrou no mundo do esporte aos 9 anos de idade. Ele desenvolveu um projeto inclusivo em uma faculdade no contraturno escolar para incentivar crianças com deficiência a ingressar na prática esportiva.

O esporte me escolheu. Eu comecei por acaso, por um convite do professor e eu fui gostando e me entregando cada vez mais e mais ao esporte. Hoje sou atleta de alto rendimento.

A educação inclusiva na formação de jovens atletas

Desde que iniciou no atletismo paralímpico, Lorena obteve importantes conquistas: campeã mundial na prova de salto em distância em Lyon, na França. Prata no mundial de Doha, no Catar, em 2015, também no salto em distância. Nos jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro (RJ) em 2016, foi bronze em salto em distância e prata no revezamento 4x100m. Em 2019, foi bronze nos 100 e 200 m no Parapanamericano de Lima, no Peru.

Mesmo com o currículo recheado de medalhas, Lorena sonha em competir em alto nível até 2028, ganhar as próximas Paralimpíadas e se tornar recordista mundial nos 100 e 200 m livres.

Para ela, a escola é fundamental para a formação de jovens atletas, uma vez que as crianças começam a desenvolver as habilidades esportivas no ambiente escolar. Ela também considera a educação inclusiva e a convivência com as diferenças imprescindível para todos os estudantes:

Foi muito importante para o meu crescimento no esporte e fora dele, porque me preparou para a vida.  Conviver com a diversidade foi muito positivo para eu ser essa pessoa que sou hoje.

Flexibilização de regras

O interesse de crianças e adolescentes por competições esportivas pode favorecer professores de educação física a planejar atividades mais divertidas e significativas para seus estudantes. Isso porque além de desenvolver competências afetivas, cognitivas e sociais, o esporte é uma poderosa ferramenta de inclusão.

Lara já solicitou aos professores e à gestão escolar que flexibilize regras e recursos e desenvolva estratégias pedagógicas para proporcionar a participação de todos. Foi planejada uma corrida de atletismo para alunos com e sem deficiência, mas o projeto não teve seguimento.

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Para ela, as escolas já avançaram muito em políticas inclusivas, mas precisam desenvolver estratégias e condições para que todos possam ter o direito à aprendizagem e à participação.

Os professores deveriam pensar em todo mundo, mas só pensam no que é mais confortável para eles, no que eles já estão acostumados. Deveriam diversificar as aulas e ser diferente. Ao mesmo tempo que existem pessoas sem deficiência que gostam de brincar, eu também gosto.


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