Projeto de contação de histórias mostra como “a leitura é transformadora”

Professora do AEE desenvolve projeto para eliminar barreiras comunicacionais e estimular confiança e autoestima de estudantes

“Entre no mundo da imaginação”. É o que se lê em letras fixadas em cubos dispostos lado a lado acima de uma das estantes da sala de leitura da EMEF Ayres Martins Torres, localizada na zona leste de São Paulo (SP). Abaixo, um brasão colorido da escola, confeccionado à mão, se perde no meio da diversidade de livros depositados verticalmente em cada prateleira e situa os desavisados sobre o espaço que estão adentrando.  

Estante com livros em sala de leitura da EMEF Ayres Martins Torres. Acima da estante, a seguinte frase está escrita em três fileiras de cubos de papel: "entre no mundo da imaginação". Abaixo dos cubos e em viga de sustentação à direita, brasão da escola. Fim da descrição.

São três fileiras de cubos, uma letra para cada um. No espaço entre as palavras, as caixas são preenchidas por passarinhos de origami colocados delicadamente no lado frontal do cubo. A sala é retangular e conta com prateleiras em seus cantos, tendo a parte central composta por mesas circulares para que alunas e alunos possam apoiar os livros. Nas vigas que unem as estantes, fotos de estudantes e ex-estudantes que deixaram a sua história pela sala.  

É nesse universo que Amanda de Souza Moura Silva, professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE) há 4 anos, desenvolve o projeto de contação de histórias com estudantes do ensino fundamental. Ela identificou barreiras comunicacionais e interpessoais enfrentadas por alunas e alunos da escola e estruturou o projeto “Um pingo de história”.

Mundo de imaginação

Desde muito pequena, Amanda foi incentivada pelo pai a ingressar no mundo da leitura. Ele, vindo de área rural, estudou até o ensino fundamental, mas sempre teve gosto por um bom livro, “por vontade própria”. Começou a apresentar histórias em quadrinhos para Amanda, como as de Chico Bento. Ela, inspirada pelo pai, logo se encantou: 

“Esse mundo da leitura me ensinou muita coisa, além do que a escola poderia me ensinar. Trouxe muito conhecimento e abriu minha mente. Tudo que eu estudo envolve os livros. Todos os meus projetos são em cima de livros e pesquisa”.

Leitura para estimular autonomia dos estudantes

“Um pingo de história” nasceu desse encanto. Na sala de leitura, os estudantes escolhem livros para ler e posteriormente apresentar para turmas do 1º e 4º ano da escola. Dessa forma, o projeto envolve os professores da sala comum, consegue ser colaborativo e transversalizar conteúdos.

Amanda de pé em frente à estante de livros, Amanda auxilia alunos a selecionarem estudantes para a contação de histórias. Nathan está no centro sentado em cadeira e de frente para a estante. Jonathan está em pé à direita e folheia um livro. Fim da descrição.
Professora Amanda auxilia estudantes a selecionarem livros para a contação de histórias.

Amanda iniciou o projeto no início de 2019 com o objetivo de fortalecer a autoestima e estimular a independência e autonomia dos estudantes, além de eliminar as barreiras de relacionamento apresentadas por eles.

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De acordo com Amanda, os alunos desenvolvem a autonomia à medida que se tornam responsáveis pelo planejamento e execução das apresentações. Além disso, o projeto proporciona desenvolvimento em sala de aula, pois trabalha a interdisciplinariedade por meio das histórias.

“A leitura é transformadora”

Nathan e Jonathan são estudantes que participam do projeto, ambos estão no 9º ano do ensino fundamental. Nathan tem deficiência física e dificuldade para organizar seu pensamento. Já Jonathan apresenta falas descontextualizadas e muitas vezes utiliza palavras soltas para tentar se comunicar.

Eles não são alfabetizados e encontram dificuldade para criar vínculos na sala de aula. A partir do contato com os livros, no entanto, se tornaram mais confiantes e apresentaram desenvolvimento comunicacional e da autoestima.

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“Eu vejo o quanto a leitura é transformadora. A leitura é importante para o desenvolvimento dos estudantes e o fato de não saberem ler não é barreira para que possam vivenciar um livro”.

Para Nathan, o processo de contação das histórias na sala de leitura é muito motivador. Ele ressaltou o respeito dos demais estudantes: “a sala ficou quietinha prestando atenção”. Jonathan, por sua vez, destaca a importância do projeto para o seu desenvolvimento interpessoal: “ajudou bastante a me relacionar com os outros estudantes”.

Direito à aprendizagem

Além do desenvolvimento comunicacional, a ideia é alinhar o projeto ao currículo dos estudantes, com o objetivo de garantir aprendizagem a todos. Para isso, Amanda pretende trabalhar de forma colaborativa e em parceria com os professores de sala, atrelando as leituras aos temas que são trabalhados em sala de aula.

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A escola está em construção de trabalho colaborativo. Amanda já iniciou planejamento de reuniões com professores e coordenadores para estruturar proposta de ações em parceira, visando garantir o acesso ao currículo para todos os estudantes.

 “O trabalho colaborativo é importantíssimo para a escola se transformar. Quando trabalhamos no individual, a construção não tem consequência e fica vazia”.

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