A alteridade no centro da quadra e o corpo no centro da escola

Projeto ressignifica as visões de estudantes sobre o próprio corpo para estimular autoconfiança, autonomia e autoestima

Sou professor de educação física e atuo em duas redes públicas municipais diferentes, nas cidades de Campinas (SP) e Paulínia (SP). Tenho como uma das principais causas de militância a valorização do componente curricular da educação física, buscando articular a prática pedagógica cotidiana com o conhecimento científico.

Em quadra poliesportiva, estudantes fazem fila para pular em trampolim. Um aluno encontra-se no ar depois de ter pulado. Fim da descrição.
Foto: Luiz Gustavo Bonatto Rufino

Desenvolvi um projeto para que os estudantes mudassem suas visões sobre os seus próprios corpos, após identificar que alunos e alunas apresentavam insatisfação com a autoimagem.

O projeto foi desenvolvido na Escola Municipal Professora Odete Emídio de Souza, localizada no bairro São José, em Paulínia, uma das regiões mais distantes do centro da cidade e que atende uma demanda crescente de crianças do ensino fundamental I, por conta do crescimento demográfico apresentado nos últimos anos.

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“No princípio, a inclusão!”

Envolvi alunas e alunos dos 3ª anos do ensino fundamental, com idades entre 7 e 9 anos. Foram aproximadamente 75 alunos divididos em 3 turmas bastante diversas. Eram meninos e meninas advindos de realidades e contextos bastante diversos (e adversos!) e que traziam em seus próprios corpos as marcas de suas histórias, sonhos e esperanças.

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Por conta da heterogeneidade das turmas e de suas características fortemente vinculadas ao contexto regional da escola, sempre segui um princípio fundamental: a inclusão de todos. Todos têm direito à aprendizagem e à prática integralizada, independente de suas características. E o modo que encontrei para colocar ações inclusivas em prática foi justamente pensando, refletindo e agindo sobre o corpo.

 

O professor Luiz Gustavo posa com seus estudantes. O grupo sorri. Alguns usam chapéus e pernas de pau. Fim da descrição.
Foto: Celia Gennari/ CREF-SP

Da diversidade de práticas a um núcleo comum: o corpo e suas múltiplas compreensões

Em duas aulas de Educação Física por semana, eu precisava dar conta de um amplo espectro de práticas apresentadas pelo currículo oficial do município, bem como articular com novas orientações curriculares, a exemplo da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Dentro do currículo oficial do município, há um bloco de conteúdos de “conhecimentos sobre o corpo”. Usualmente, ensina-se os aspectos biológicos, fisiológicos, anatômicos e até mesmo as partes do corpo (a exemplo das famosas atividades de “cabeça, ombro, joelho e pé”).

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No entanto, eu queria ir além: fazer com que os alunos refletissem de forma mais ampla sobre seus próprios corpos. Foi aí que realizei uma pesquisa com eles justamente para entender como identificavam o próprio corpo, e se gostavam de si mesmos ou não.

O diagnóstico apresentado pelo relato escrito dos alunos foi assustador! Vergonha da própria cor, relatos de práticas de racismo já vivenciadas por essas crianças tão pequenas, vergonha do formato ou composição corporal (alguns que se sentiam muito acima do peso, outros que não gostavam de ser muito magros), problemas com suas alturas (ou muito baixos, ou muito altos), cor de cabelo, olhos, deficiências físicas… Enfim, a lista de críticas sobre si mesmo foi grande e era preciso fazer alguma coisa!

 

Imagem aérea do professor Luiz Gustavo e sua turma desenhando corpos no chão da quadra poliesportiva, usando giz. Fim da descrição.
Foto: Roosevelt Rev/ Nova Escola

Foi aí que resolvi agir integrando diferentes competências socioemocionais articuladas com um processo de reflexão crítica sobre o corpo e suas potencialidades e limitações. A ideia foi articular os diferentes conteúdos apresentados pelo currículo oficial com a exploração de vivências e reflexões vinculadas ao corpo dos próprios alunos.

Foi dada especial atenção às potencialidades dos estudantes e às possibilidades concretas que o corpo humano apresenta, afinal, como Eduardo Galeano nos instiga a pensar: “o corpo é uma festa!”.

 

Eixos de trabalho e seus desdobramentos

Para concretizar o projeto, levando em consideração o currículo da cidade e a BNCC, parti de três eixos de trabalho diferentes:

Eu, meu corpo e minha história

Primeiro, busquei com os estudantes compreender a relação dos e das estudantes com seus próprios corpos. Para isso, desenvolvemos uma série de ações vinculadas a práticas corporais apresentadas no currículo, como corridas rasas no atletismo e alguns movimentos da ginástica, além do malabarismo, que incluí em minhas aulas.

A ideia era vivenciar diferentes formas de compreender o corpo em movimento e alguns dos desafios apresentados por ele. Foi fundamental vincular tais ações a reflexões em sala, como leituras, análise de imagens e escritas das histórias de vida deles.

O outro e seu corpo

Com o segundo eixo, procuramos entender a relação dos estudantes com os colegas, com o objetivo de possibilitar reflexões sobre a importância do outro na construção de uma identidade corporal. Para isso, realizamos discussões e vivências de silhuetas dos corpos em duplas, bem como experiências com perna de pau, em que os alunos precisavam se auxiliar. Houve também desenhos e representações sobre os corpos e as práticas corporais da educação física.

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O corpo e suas potencialidades e limitações

Finalmente, a ideia do terceiro eixo era trazer a alteridade para o centro da quadra e vivenciar novas formas de movimento a partir de restrições sensório-motoras, tais como utilização de vendas e ações que limitavam os movimentos das pernas. Nesse eixo, também fizemos atividades de parkour explorando outros ambientes da escola e permitindo que os alunos percebessem que existem muitas potencialidades dentro das possíveis limitações.

 

Em quadra poliesportiva, estudantes realizam atividade sensorial, em que um estudante usa vendas enquanto outro o guia pela quadra. Alguns cones estão dispostos no chão. Fim da descrição.
Foto: Luiz Gustavo Bonatto Rufino

Aspectos avaliativos e ampliação do projeto

Em todas as ações, adotamos uma série de estratégias inclusivas que nos permitiu incluir todas e todos. Exemplo disso foi a adaptação das atividades em diferentes níveis de desafios de forma que os alunos pudessem experimentar, refletir, vivenciar e fruir as práticas corporais de diferentes formas. Também foram planejadas atividades em pares, fundamental para a relação de troca de vivências na esfera da inclusão.

Além disso, criamos um ambiente diverso que não se restringiu apenas à sala de aula ou à quadra, mas explorou outros espaços físicos da escola, como o pátio, o gramado e o entorno da árvore. Também adaptamos materiais presentes na escola, como bolinhas de tênis, giz e tecidos, para a construção das aulas de atletismo e ginástica.

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O professor Luiz Gustavo posa para foto com estudantes ao lado de árvore. Os alunos estão escalando a árvore, pendurados no tronco. Fim da descrição.
Foto: Celia Gennari/ CREF-SP

Ao longo das atividades, a reflexão dos estudantes sobre as atividades desenvolvidas foi muito importante. Houve explícita articulação entre as práticas vivenciadas com as atividades escritas, desenhos e representações. Estas compuseram um portfólio avaliativo individual, no qual foi possível compreender o desenvolvimento dos alunos ao longo do processo das 13 aulas.

Ao final do processo, houve um explícito desenvolvimento de novas formas de compreensão sobre o corpo e da relação mais colaborativa e respeitosa dos alunos consigo, com os demais colegas e com os professores. Além disso, ampliou-se o repertório de experiências relacionadas à cultura corporal de movimento, o que permitiu que o projeto galgasse novos ares e começasse a ser propagado em outros contextos e regiões.

O projeto ilustrou que a ressignificação das visões de corpo é um aspecto fundamental a ser pensado não apenas nas aulas de educação física, mas para a escola como um todo.


Luiz Gustavo Bonatto Rufino foi um dos 10 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2019 com o projeto “Ressignificando as visões sobre o corpo”.

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